Mobilização Digital e as manifestações de 17 de junho

Ainda não se conhecem os resultados práticos destas manifestações – e eles são essenciais para manter nossa fé na democracia – mas um aspecto já foi fundamentalmente transformado. Pela primeira vez uma manifestação popular, iniciada sem o apoio de partidos ou da imprensa, transformou-se em um movimento nacional. Há alguns dias todos os representantes de poderes instituídos eram contra as passeatas. Governos, partidos, jornalistas, todos criticavam a violência, o trânsito interrompido, o motivo supostamente fortuito: 20 centavos na tarifa do transporte público. Ontem acompanhei, maravilhado, uma transmissão na qual jornalistas pisavam em ovos, com receio de chamar de “vândalos” os poucos manifestantes que, de fato, vandalizavam o patrimônio público. Nunca a vontade popular prevaleceu tão evidentemente diante dos meus olhos.

Desculpe o Transtorno, estamos mudando o BrasilDe tantos aspectos notáveis desta transformação, já abordados por muita gente qualificada nas redes sociais, vou falar do que é a minha especialidade – comunicação e as novas mídias na mobilização social.

Mas de onde veio toda esta gente?
Um dos questionamentos que mais tenho ouvido é “Como as manifestações foram organizadas tão rápido sem uma coordenação central?” E a resposta é: elas foram organizadas tão rápido exatamente por não ter uma organização central. Mobilizações tão rápidas (ou ainda mais rápidas, como as Flash Mobs) são possíveis apenas nas comunidades hiperconectadas, por meio do fenômeno das redes sociais chamado de enxameamento (swarming). Conceito trazido do campo dos ecossistemas biológicos, o enxameamento é o comportamento coletivo visto, por exemplo, em cardumes de peixes. A impressionante habilidade dos cardumes de mudar de direção imediatamente quando um predador se aproxima, sem que eles colidam entre si ou se dispersem desordenadamente, vem do fato de que cada indivíduo move-se em relação aos seus próximos, e não respeitando uma coordenação central. A lógica é fácil de ser compreendida: é muito mais intuitivo sentir e acompanhar mesmo as menores variações de movimento dos indivíduos ao seu lado do que receber um comando central, racionalizar e decidir uma linha de ação. Este comportamento cria uma espécie de inteligência coletiva, totalmente descentralizada.

O enxameamento acontece no nível físico entre os humanos também, como em uma multidão que corre pelas ruas, mas torna-se um fenômeno ainda mais complexo e fascinante no nível social. Quando somos super expostos a centenas de opiniões, mais ou menos convergentes com as nossas, é como sermos empurrados em diversas direções pela manada. As forças em direções opostas se anulam, mas os discursos convergentes se intensificam, até que se estabeleça um vetor de grande força em uma corrente principal. E com as bilhões de interações por dia nas redes sociais, toda uma nação pode levantar-se em poucos dias, horas ou minutos.

Então é o velho e conhecido “efeito manada”?
Sim, e não. O efeito manada (link em inglês) caracteriza-se pela situação em que um indivíduo adequa seu comportamento individual ao comportamento coletivo, a despeito de suas próprias crenças e opiniões. Em contextos diversos, este comportamento é atribuído a várias causas – nas ciências econômicas, por exemplo, acredita-se que os indivíduos sempre consideram que têm menos informação do que outros, e portanto seguem o comportamento da maioria ou de grupos de referência. Tomado estritamente neste significado, o fenômeno de 17 de junho apresentou, sim, o efeito manada. Se quiser uma comprovação pegue o histórico de comentários dos seu amigos até o dia 18, no qual você verá opiniões as mais diversas, e a partir do dia 19, quando o apoio às manifestações virou praticamente unanimidade. Esta tentativa de adequação social sempre existiu e sempre existirá. É da nossa natureza, e é benéfico. Um sinal de empatia pelo próximo que nos faz desejar o acordo e não o conflito.

No entanto o conceito popularizado do efeito manada, de uma manipulação da massa em favor dos objetivos de poucos, definitivamente não se concretizou. A despeito dos esforços da mídia e de governantes para menosprezar os manifestos, das más intenções de vândalos aproveitando a confusão e do oportunismo de grupos políticos tentando “encabeçar” o movimento, as manifestações seguiram dia após dia, com a inexorável perseverança da população. Neste sentido, de manipulação e instrumentalização da massa, o efeito manada não aconteceu. Pelo contrário, a população de fato fez sentir o seu poder, submetendo imprensa e governos a seus desígnios, e dando assim à manada as rédeas da situação.

Dentre dezenas de exemplos, como a retratação do jornalista Arnaldo Jabor, trago abaixo o meu preferido. Ele representa o momento de absoluta convicção, por parte de todas as parcelas da população, na importância e legitimidade das manifestações.

E agora, para onde?
A grande dúvida agora é a respeito do objetivo final de toda a manifestação. Com tantas bandeiras, temas e insatisfação, retratados em cartazes que falam do transporte público, passando pelos gastos com a Copa do Mundo e chegando ao absurdo da PEC 37, críticos argumentam que o movimento está deixando de fazer sentido. Afinal, qual o objetivo de toda esta mobilização? Pois bem, eles são vários, e nenhum ao mesmo tempo. E isto é ótimo! A fragmentação e a multiplicidade são o próximo passo deste movimento.

É agora que a centelha disparada pelo “Nós podemos” vai acender as ideias, diferentes em cada um de nós. E os grupos, em seus interesses específicos, devem continuar o diálogo sem fim da democracia. Não há problema nenhum em não termos uma única bandeira. Nunca houve uma única bandeira. Era só nossa percepção, profundamente condicionada pela mídia, que traduzia a realidade assim. E a mídia, também condicionada por sua própria forma e os recursos tecnológicos de então, era obrigada a concentrar em um único tema impulsos que na verdade tinham origens múltiplas. O mundo real sempre foi este caos, mesmo.

Prova disso é que o “17 de junho”, já tão debatido, ainda não tem um nome. Os veículos de comunicação que, por questões práticas e/ou ideológicas, sempre rotularam os movimentos, vêem-se de mãos atadas, arriscando definições que são rechaçadas em minutos nas redes sociais, como restritivas e incapazes de abranger a complexidade do fenômeno.  De maneira inédita na nossa história, as redes de TV não dominam uma “versão oficial”, a ser reproduzida indefinidamente.  Ninguém domina.

Desta vez não teremos ninguém para nos dizer qual foi a lição aprendida. Teremos que descobrir por nós mesmos, cada um a sua. Mas como já dizia a campanha publicitária, ”pelo menos uma coisa a gente tem em comum”. Sabemos que é preciso mudar muita coisa neste país. E sabemos que já é hora de começar.

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